quarta-feira, 17 de julho de 2013

A Cabra - Reorganizar para desenvolver

Nb. Controverso e polémico, mas antecipa-se  e é inteligente: Antecipando discurso proveniente do novo R da nova UL... . Após um 17. Bh4 d5 aqui vai um 18. b4!... . 

Promete. 

E com devido interesse. 

Watch this \ that space! 

A Cabra - Reorganizar para desenvolver:

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A necessidade de uma reorganização da rede do ensino superior é  um tema recorrente em Portugal. Em regra gira à volta da afirmação da existência de demasiada oferta pública, do desperdício de recursos com cursos sem alunos, e a necessidade de concentrar esses mesmos recursos num conjunto restrito de escolas, para que possa existir em Portugal ensino e investigação ao nível dos melhores do mundo.
 
A estas observações respondem os que se sentem visados, em regra escolas do interior do país onde há de facto poucos alunos, dizendo que a saída dessas escolas de regiões demograficamente frágeis levaria essas regiões a um declínio terminal.
 
Está subjacente a ideia de que as escolas procuradas por mais alunos são melhores do que as procuradas por menos alunos. Se os estudantes procurassem, acima de estudo, a melhor escola para obter a sua formação superior, essa escolha seria uma excelente indicação para se saber quais as escolas de maior qualidade. Sabemos no entanto que assim não é. A qualidade da escola tem seguramente um papel importante na escolha dos candidatos ao ensino superior, mas não é a razão principal.
 
A proximidade à área de residência é o fator decisivo. Basta ver que, por exemplo, a percentagem de estudantes de Lisboa na Universidade do Porto é residual, e o mesmo se verifica nas Universidades de Lisboa em relação a estudantes vindos do Porto. As razões disso são óbvias: o grande custo de frequentar o ensino superior não são as propinas, que aliás não variam de forma relevante entre as várias escolas, mas sim os custos de alojamento e alimentação, caso de tenham de sair de casa para ir para a Universidade. Ficando em casa dos pais os custos são muito inferiores, pelo que a universidade mais próxima, mesmo que esteja longe de ser a melhor, é em regra a escolhida.
 
Outra razão menos óbvia é de raiz cultural, mais profunda. Em alguns países, o momento da independência em relação aos pais é a entrada na universidade. Muitas vezes, mesmo que entrem numa universidade na mesma cidade onde moram com os pais, os estudantes saem de casa e passam a viver numa residencial estudantil, num quarto ou até em apartamento próprio. É o caso de países com a Alemanha, a Noruega ou os Estados Unidos. Países mais ricos que Portugal, poder-se-á dizer. Mas em Portugal, mesmo os estudantes com condição económica para o fazer raramente o fazem. Há menos espírito de aventura, menos vontade de independência a não ser para sair à noite, e a sociedade genericamente só espera esse momento de independência com o primeiro emprego.
 
Não vale por isso a pena olhar para as preferências dos estudantes portugueses para determinar quais são as melhores universidades, pois apenas conseguiremos identificar quais as universidades que têm mais população nas redondezas.
 
Fechar os cursos que atraem menos alunos não significa, por isso, preferir as melhores escolas. Significa beneficiar os grandes centros populacionais e dar mais um passo no processo de desertificação do interior do país.
 
Reconheço, no entanto, que o país não pode ignorar que manter cursos sem alunos é desperdiçar recursos que são escassos. Se há oferta excedentária, ela tem de ser encurtada. A questão que se levanta é, no entanto, a de decidir quais cursos fechar. Os dos grandes centros, ou os dos outros locais? Em alguns casos dever-se-ia fechar os dos grandes centros, não os do interior.
 
Uma verdadeira opção pelo desenvolvimento do país seria definir que a oferta pública de qualidade em algumas áreas do conhecimento deveria estar fora de Lisboa e do Porto. Colocar no interior escolas de qualidade teria um efetivo efeito de promoção de desenvolvimento do país. Reconheço que a grande maioria das escolas do interior, por muitas razões, não têm qualidade internacional. As regras para estas novas escolas teriam de ser muito mais exigentes; não poderiam ser meras agências de emprego para os caciques locais. É possível criar essas escolas de grande qualidade fora das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Algumas já existem.
 
Quer Portugal aceitar este desafio, de desenvolver todo o seu território e inverter o processo concentracionário em duas grandes áreas metropolitanas? O mínimo que podemos dizer é que esse processo de concentração, que tem vindo a concretizar-se há tantos anos, não trouxe ao país o desenvolvimento desejado. Penso que Portugal é demasiado pequeno para prescindir da grande maioria do seu território.

'via Blog this' The Honourable Schoolboy

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